segunda-feira, 17 de maio de 2010

Privacidade

Outro dia estava assistindo a uma palestra ouvi a seguinte frase. A privacidade e a liberdade de um indivíduo começam quando termina a do próximo. Na hora pensei que aquele sujeito não mora em um apartamento de uma cidade grande. Não há um conceito de privacidade em um espaço com vinte milhões de habitantes. O próximo fica muito próximo.

Eu normalmente acordo zonzo com o despertador. Cambaleando e zumbindo encontro meu caminho para o banheiro. Um banho rápido e meio frio seguido de um café forte alinha meu cérebro. Um monte de informações desconexas vem do radio que meu vizinho insistentemente deixa no último volume. Ainda meio abobado a meio caminho do hall de entrada agarro o jornal do dia. Lendo as manchetes aperto o botão do elevador. A porta se abre e seres estranhos com caras amassadas iguais a minha me olham com impaciência. São intermináveis sessenta segundos de trajeto descendente em um ambiente minúsculo cercado de pessoas que mal conseguem pronunciar um bom dia. Nem o choque térmico do banho meio frio foi tão violento. Quer mais invasão de privacidade do que isso?

Tenho certeza que qualquer ser humano racional quando aperta o botão do elevador reza para que o mesmo venha vazio.

A caminho do trabalho passo no banco. Para variar vejo aquela fila enorme e os mesmos tipos amassados segurando pilhas de documentos. Olham constantemente irritados para o relógio como se isso fosse fazer a fila andar mais rápido. Educadamente vou para o fim da mesma com meu jornal embaixo do braço. Não há como escapar, a pessoa na minha frente faz aquele comentário inevitável que ouvimos milhares de vezes:

- Que fila heim?

Na minha sapiência matinal embaralhada e longe ainda do meu segundo café respondo um sonoro:

- É!

A pessoa arregala os olhos assustada e vira para frente. Ótimo, posso continuar a ler o jornal.

Nem bem fixo os olhos no periódico a mocinha do banco me interrompe:

- O senhor vai fazer um depósito? Não quer usar o caixa automático?
- Não!

Outra arregalada de olhos. Que coisa! Resolvo colocar os óculos escuros, melhor assim. Fico com cara de mau e ninguém mais comentará nada comigo. Nada contra a boa educação mas minha parte do cérebro responsável pela fala ainda não foi acionada.

Finalmente chego ao trabalho. Abasteço-me de outro café forte. Um monte de telefonemas para fazer e um monte de coisas a resolver. Até aí nada de errado, afinal sou pago para isso.

Todos acham que trabalho muito, nem saio para almoçar. Faço um lanche ali mesmo. Muito mais confortável. Não tenho que pegar o carro, filas no restaurante, encontros indesejáveis. Fico ali mastigando devagar e desafiando pela centésima vez o computador para uma partida de paciência.

Começo a pensar na palestra que assisti. Uma forma prática de resolver o dilema de privacidade e liberdade individual seria reeditar o antigo bambolê. Aquele brinquedo antigo que consistia em um aro de plástico de um metro de diâmetro usado para um misto de dança e diversão. Todo o cidadão poderia portar um daqueles e a qualquer momento colocar no chão e entrar no círculo. A partir deste ato o espaço dentro do bambolê seria inviolável. Ninguém seria permitido interagir com o indivíduo ou violar seu perímetro. Caso isso acontecesse o transgressor estaria sujeito à multa e apreensão do próprio bambolê. O problema seria o incomodo de carregar aquilo para todos os lugares.

Lembrei do banco que tinha ido logo cedo. Naquele caso funcionaria perfeitamente, ninguém mais ficaria fungando no meu cangote tentando fazer a fila andar mais rápido. Poderiam até inventar um sistema de cores. Bambolê vermelho: proibido qualquer tipo de interação. Amarelo: pergunte antes. Verde: use e abuse. Seria a melhor forma de legitimar e legislar o convívio entre as pessoas.

Paro de pensar em como resolver a teoria do caos e retomo meu trabalho.

Fim do dia, cansado, saio dirigindo e encalho em um mar de carros. Parado no transito começo a olhar para as figuras ao redor. A mocinha falando ao celular balançando a cabeça negativamente. A senhora passando batom enquanto tenta engatar a marcha do carro. O executivo em um carro enorme usando um barbeador elétrico. O pós-adolescente chacoalhando a cabeça com o som no ultimo volume. Devem achar que estão na sala de casa. Eu mal consigo assoar o nariz para não desgrudar as mãos do volante.

Fecho os olhos e imagino uma casa de campo com um gramado infinito. Muito espaço, muito sol, muito calor, muito.....Uma buzinada me tira daquele torpor mental. O farol abriu e todos me olham feio como se eu fosse responsável por aquele caos.

Finalmente chego em casa. Pego o elevador junto com uma senhora guiando um cachorro que não desgruda os olhos de mim.

- É mansinho. Diz ela enquanto o quadrúpede cheira meu sapato.

Com uma vontade crescente de esganar o canino me refugio no canto. Desço no meu andar e rapidamente entro em casa.

Lar doce lar. Coloco minha bermuda favorita, meu chinelo de dedo e um congelado no forno. Sento preguiçosamente no meu sofá. Coloco o prato de comida no colo e o controle remoto do lado.

Finalmente minha sonhada privacidade. Então era disso que o rapaz da palestra devia estar falando.

O telefone toca.

- Meu nome é Márcia, sou da Telefônica e estou ligando para saber se o senhor estaria interessado.........

Respiro fundo e volto a lembrar da casa no campo.

3 comentários:

robson disse...

muito bom vc tem razão

Bazar da Neusinha disse...

Meu amigo, Adorei! Não há nada mais chato do que sentar no sofá e tocar o maldito telefone! Quando não é de algum sistema de telefonnia, é do cartão de crédito, que você nunca pede e nem vai querer pedir, mas as "mocinhas" ligam, na tentativa incessante de ouvir um "sim". Um grande abraço.

Rita disse...

Privacidade é apenas um sonho.